O óvulo estelar e o esperma cósmico

O acelerador de partículas, um túnel subterrâneo de 27 km, entre a França e a Suíça, acaba de realizar um feito científico extraordinário. Algo que beira a magia e a superstição. Os cientistas puseram feixes de prótons para entrar em choque entre si a uma velocidade de 300 mil km por segundo (bem próximo da velocidade da luz) e criaram em laboratório o que já estão chamando de mini bigue-bangue, numa referência à explosão ancestral, que teria dado corpo ao universo. Os pesquisadores estão à cata de uma suposta partícula, que não tem existência comprovada, mas já foi batizada de Bóson de Higgs.

A hipotética partícula teria a nobre função de conferir massa à matéria. Ou seja, no momento em que esse misterioso fermento se achegou à matéria contida num núcleo infinitamente pequeno (pois não continha massa) o universo eclodiu numa reação química bombástica. Eclosão que ainda não terminou, pois há estudos que comprovam que o universo ainda está em expansão.

Já tem gente pensando que, com o conhecimento dessa particular elementar, a origem do universo estará definitivamente desvendada. Que poderão até ser feitos em laboratório arremedos de universo, com sua matéria, com seu espaço, com seu tempo. Ou quem sabe um buraco negro, com fome suficiente para engolir o universo real com tudo que nele se encontra. Outros ainda acreditam que o surgimento da vida será finalmente esclarecido e com esse esclarecimento, uma porção de perguntas até agora sem respostas poderão ser finalmente respondidas. Do tipo quem somos? De onde viemos? Para aonde vamos? Estamos na Terra obedecendo a quais propósitos?

Mas esta é uma área um tanto pantanosa, cheia de mistérios em camadas, labirintos e cascas de bananas. Se a tal Bóson de Higgs continha o pirlimpimpim de conceder massa a um universo imaterial e restrito, como, quando e por ordem de quem teria surgido esse universo peculiar e primitivo, como um óvulo estelar pronto para ser fecundado por um esperma cósmico? A quem interessava construir essa espoleta, essa faúlha de massa ativa, esse catalisador de mundos e mantê-lo acondicionado em seu arsenal de coisas elementares para, em momento propício, deflagrar o universo com massa, tempo, espaço e tudo o mais?  Por que teria chegado a hora de juntar as peças elementares e retirar o universo de suas condições potenciais?

Há quem já esteja chamando a tal espoleta de Partícula de Deus. Num sinal inequívoco de que mais do que acabar com os mistérios, eles serão ampliados. Aliás, o pensamento de que a ciência pode dar conta de responder a todas as nossas perguntas é uma das superstições mais cultivadas desde o surgimento do positivismo.

Como queria Chesterton, arte é limitação. A essência de um quadro está na moldura. Mutatis mutandis, a ciência precisa delimitar os contornos do objeto de seu estudo. Avaliar os fenômenos que acontecem dentro de certo espaço/tempo bem delimitado, tabular suas regularidades e desvios e emitir seus postulados. Assim, por mais longe que o acelerador de partículas tenha ido em seus testes, jamais dará conta de sondar as origens remotas e fundamentais, aquelas que se encontram além das talas da moldura, muito menos dará conta do significado ético das coisas. Isso são questões para outros itens da grade cultural, tais como a filosofia, a arte ou mesmo a teologia.

Como a vida, por exemplo. Vida aqui como princípio de vitalidade, no sentido biológico mesmo. Esse ente mágico que se estabeleceu de forma tão diversificada e robusta na Terra que dificilmente seria banida por alguma calamidade, por mais severa e radical que fosse. Algumas espécies, sim, inclusive a do homo sapiens, estão bem fragilizadas pelas dramáticas alterações do clima. Principalmente por aquelas mudanças decorrentes das atitudes nocivas do próprio homem, como o efeito estufa e a esgarçadura da camada de ozônio. Sim, essa vida biológica pode ser rastreada até bem remotamente, quando minúsculos tijolos de aminoácidos se uniram (casualmente?) e formaram a primeira joint venture, com cláusulas químicas e físicas, dando origem à primeira célula viva, o primeiro centro de processamento metabólico do universo. Há controvérsias se esse momento primordial ocorreu na Terra ou fora dela. Isso pode ser curioso, mas não altera o grau do mistério. Além desse ponto a ciência não consegue avançar. Ou pelo menos não conseguiu ainda.

O caminho que a ciência percorreu, seja por comprovações, seja por hipóteses, não é pequeno. No entanto, sobre o sentido da vida na acepção de vivência,  a experiência concretas da vida, em termos valorativos, muito pouco pode dizer. Esta acepção fica adstrita a outras áreas da ocupação humana, como a filosofia, as artes e a teologia. Para a maioria das correntes teológicas a vida (criatura) tem o propósito de servir ao criador.

Para os governantes a vida consiste em legitimar e ser legitimado. Para Borges a vida carece de finalidade. Cada qual que se vire, se quiser, para dar um significado à sua. Para Shakespeare a vida é feita da mesma substância de que são feitos os sonhos. Se o leitor souber de que são feitos os sonhos, logo saberá de que é feita a vida. Coisa lógica e simples.

Fernando Pessoa conseguiu unir as noções de Borges e Shakespeare: Não sou nada. Nunca serei nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Para Bioy Casares, amigo de Borges e um dos precursores do realismo mágico latino-americano, a vida (a nossa realidade) não passa de um sonho (ou pesadelo) de uma outra entidade oculta, inalcançável pelos nossos sentidos limitados.

No filme “Matrix” de 1999, dos irmãos Wachouski, de inspiração platônica, a vida humana (sobretudo sua mente) está aprisionada por um programa de computador. Programa esse que suga os impulsos elétricos dos seres humanos para dominar o mundo e em troca oferece um simulacro de realidade.

Para o mercado, o deus mais atuante dos dias atuais, o sentido da vida é suprir necessidades. Só o atendimento das necessidades seria capaz de criar uma ordem, de dar sentido, de tracionar a vida pra frente. Para o mercado, viver é discrepância e não plenitude. O profeta do deus mercado é o marketing, cuja função primordial é criar necessidades (discrepâncias) para o mercado suprir. A vida como agregadora de valores e dividendos (leia-se: lucro) para o mercado. Não mais que isso. Inclusive, nas circunstâncias em que o lucro pode advir da morte, o mercado não hesita em proceder uma aniquilação em massa. As guerras estão aí para que não tenhamos dúvidas.

Já Cecília Meireles, que se apresenta imune aos sentidos apresentados, afirma: Eu canto porque o instante existe e minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Como se vê, vida de poeta não se firma na necessidade mas na plenitude.

Talvez por isso que os poetas sejam tão hostilizados.  Pelos teólogos porque  aos poetas falta aptidão para servir. Pelos governantes, sejam de direita, sejam de esquerda, porque aos poetas falta firmeza para a legitimação. Pelo mercado, porque como disse Cecília, sua vida está completa e não precisam consumir, pois para cantar, o instante existe e é o bastante.

Como podemos ver, para sondar a vida, nos misteriosos aspectos do sentido que ela possa ter, o megalomaníaco acelerador de partículas é tão inútil quanto uma espingarda de matar demônios. 


Por:   EM 07/04/2010 ÀS 10:42 AM
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